Maio começou e minha lista não diminuiu. Meu tempo está divido entre leitura sobre cinema para meu TCC e minhas leituras ociosas. E cá entre nós, estou tendo cada vez menos ócio.

Meu TCC se baseia no filme “O Sétimo Selo”, de 1956 do sueco Ingmar Bergman. Estou me debruçando na historiografia em torno da historiografia do uso do filme como fonte histórica. Minha última aquisição literária é a autobiografia de Bergman, intitulada “Lanterna Mágica”. 

Já no ócio, estou lendo Novembro de 63 de Sthephen King. Baixei ele para meu kindle por sugestão da Amazon e, tirando um pouco da narrativa prolixa de King, estou tendo uma experiência agradável com a leitura. Só depois que iniciei a leitura é que descobri que o livro foi adaptado para uma série de TV estrelada por James Franco. Assim que terminar a leitura, irei me arriscar a assisti-la.

Outra leitura que vem me agradando bastante, é o romance policial Bicho da Seda, escrito por J. K. Rolling sob o pseudônimo de Robert Galbraith. Gostei tanto, que me arrependo de não ter lido o livro antecessor, O Chamado do Cuco. Para meu bem, tirando o fato de serem as mesmas personagens, as histórias são totalmente independentes.

Por questão de tempo, minha leitura do clássico “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, foi pausada. É um livro com tantos detalhes magníficos – principalmente para historiadores – que é um crime não reserva-lo para uma leitura mais profunda e individual.

Bem, esse mês vai ser bastante corrido e pretendo começar a postar vídeos resenhas sobre as leituras. Gostou da minha lista? Quer mais informações? Entre em contato comigo ;)
Pra quem é fã de literatura de ficção científica e fantasia e se aventura a escrever, já deve conhecer a Revista Trasgo.

A revista está em sua décima edição e abre espaço para escritores e ilustradores nacionais que querem divulgar seu trabalho. No site da revista você encontra informações sobre como ter seu conto ou ilustração divulgados. Vale muito a pena você acompanhar!

Para baixar a revista em pdf ou mobi e epub é muito simples! Você paga o download com um tuite ou um compartilhamento no facebook.

Recomendo fortemente também que você deixe um feedback sobre os contos no Skoob e em outras mídias sociais, pois assim, estaremos incentivando mais ainda o mercado literário brasileiro.

Acompanhe a Revista Trasgo: www.trasgo.com.br
Gosta de fantasia? Siga a página do meu livro: www.facebook.com/Ghiskran


Novembro é o mês certo para os escritores! É mês de Nanowrimo. E como eu quero acelerar o processo da primeira versão das Crônicas de Ghis'Kran: O Deserto Vermelho, eu não podia ficar de fora.

O NaNoWriMo (sigla para National Novel Writting Month) foi criado em 1999 por Chris Baty e colaboradores para incentivar escritores procrastinadores que nem eu a terminarem seus romances.

O evento se expandiu e hoje no mundo todo, milhares de escritores tentam cumprir a meta de escrever 50 mil palavras no mês de novembro (1.666 palavras ao dia), o que seria um livro curto.




No meu caso, eu quero acelerar o processo da primeira versão das Crônicas de Ghis'Kran (eu particularmente leio "guiscran"). Estou em 40 mil palavras da primeira versão, com a meta pessoal de 150 mil palavras. Ou seja: nesse mês de novembro pretendo alcançar 90 mil palavras.

A iniciativa é ótima! E você não precisa se preocupar em editar seu texto. A meta é escrever, escrever, escrever. E se puder, escrever mais um pouco.

Bem, já estamos no décimo dia de novembro e creio que se você quiser entrar na onda, terá que ralar pra caralho! Fique por dentro do NaNoWriMo? Acesse http://nanowrimo.org/ e crie sua conta.

Até mais! ;)






















       Me sinto uma tola vindo até este homem. Onde eu estava com a cabeça em concordar com a dissimulada da minha tia? Ele até agora só nos encarou com essa cara gordurosa. Os bolsões dos olhos dele me dão nojo. Olhos amarelos.

       O filho da puta do Martinho - que me infernizou e zombou a semana inteira pela minha decisão de vir - estava mudo, encarando a prateleira mofada daquele cômodo que exalava um miasma que meu delicado nariz não suportava. Havia livros e mais livros acadêmicos, de edições muito antigas e costuras abertas.

       - Bem, - comecei desconcertada batendo as palmas das mãos no joelho - o senhor precisa se... preparar ou algo assim?
       - Já estou pronto. - Respondeu aquele homem seboso.
       
       Olhei para a velha mesa redonda entre nós. Estava vazia. Nenhum globo, cartas ou mesmo uma toalha. Apenas a dura e áspera madeira que ameaçava morder com suas inúmeras farpas auspiciosas.

       - Nem mesmo velas? - Perguntei.

       Ele me olhou com altivez.

       - Por acaso cera e pavio estavam na primeira fagulha do universo? - Respondeu ele sarcástico.

       - N-não. - Gaguejei com raiva - Mas pensei que algum ritual fosse necessário.

       - Rituais são coisa deste mundo, criança. Idealizados pelas mentes pequenas deste mundo, para impor suas vontades igualmente ínfimas. E se está aqui, não é com este mundo que está interessada.

       Ele falava com a eloquência e arrogância de um acadêmico. Aquilo me incomodou mais.

       - Deixe o homem, Regina. - Falou Martinho no momento em que eu preparava uma tréplica.

       “Primeiro me condena por vir, agora o defende!”

       - Faremos do seu jeito. - Eu disse buscando calma - quando começamos?
       
       - Começamos? - Repetiu o homem.

       “Ah, não. Esse joguinho novamente?”

       - Bem, você sabe. - Disse controlando meu nervosismo - Você pode estar familiarizado em fazer interurbano para o além. Mas eu não tenho ideia nem que prefixo discar.

       O homem riu. Por Jesus, até a risada dele parece ser amarela e sebosa.      


       - Como eu disse, minha jovem, rituais são para este mundo. Não há começo, meio ou fim para o outro. O tempo é outra futilidade nossa. Quando entrou por esta porta já havia começado a eras. Não espere que a mesa levite ou que eu seja possuído pela sua irmã, isso não vai acontecer.



       Um arrepio atingiu meu corpo como uma enchente. Martinho também a sentiu, pois os pelos do braço dele estavam eriçados.
       
       - Isso é alguma brincadeira da tia Carmem? - Perguntei séria.
Tia Carmem havia pegado o contado desse bruxo com a amiga de uma vizinha.

       - Não conheço nenhuma Carmem, criança.

       - Como sabe que vim pela minha irmã?

       O homem sorriu.

       - Eu já disse, começou eras atras.

       - Então ela está aqui? - Perguntou Martinho.


    - Oras, claro que está! - Disse o homem se acomodando na cadeira – Afinal, vocês a trouxeram.


       Eu e Martinho nos entreolhamos.

       - Ela diz que não quis te ferir enquanto dormia. Mas era a única forma de você deixar o ceticismo de lado...

       O olhar do homem divagou enquanto uma feição triste surgia em seu rosto. Eu puxei a manga da minha blusa para ocultar ainda mais as stigmatas.

       - Ela... - Recomeçou o homem saindo aos poucos do transe - Ela sente muito por ter chegado a este ponto.

       Martinho estava incômodo. Passava a mão no peito a cada dois segundos. Deve ser a asma. Por sorte eu trouxe o remédio dele.
       
       - Supondo - comecei buscando o restante de ceticismo que havia em mim - que eu acredite que ela esteja te dizendo isso...

       - Está. - Interrompeu o homem esfregando os olhos cansado.
       
       - Certo. - Recomecei - Que prova eu teria que é ela mesmo?

       O homem seboso me encarou com um sorriso sorrateiro e me estendeu a mão.

       - O q-que é isso? - Sobressaltou-se Martinho. Quando foi que ele começou a suar tanto?

       -A senhora ‘‘Tomé’’ quer uma prova. Estou dando a ela esta prova.

       Encarei a mão calejada e suja daquele primata involuído com desconfiança.

       - É claro - disse ele rindo - se ela tiver coragem.

       Fuzilei com o olhar aquela face sebosa e redonda com toda a raiva dos sete infernos e puxei minha cadeira para frente fazendo ranger a madeira do chão. Martinho tentou me impedir com palavras gaguejadas e fracas enquanto estendia minha mão para alcançar a do bruxo. De repente, eu já não era eu mesma.

       Desespero!

       Eu ofegava correndo num lugar escuro e destruído. Seria o inferno? Não, a angústia no meu peito dizia que eu fugia do verdadeiro inferno, do carrasco dos meus pecados.

       Corri pela escuridão chorando e ferindo meus pés, pois estava descalça. Um grito horripilante atrás de mim me fez soltar um grito desesperado enquanto tropeçava em meio a entulhos de tijolos e cimento. Uma lasca entrou no meu pé fazendo com que uma dor aguda e seca percorresse meu corpo. Um sabor salgado de sangue me veio a boca na mesma hora em que vi o objeto voando em minha direção. Desviei do martelo que se enterrou no entulho atrás de mim.

       E lá estava o arauto do caos! A cria infernal que me perseguia. Meio homem e meio bicho. A máscara de látex que ele usava era a de um macaco. A respiração demoníaca dele era como a de uma besta abissal por trás daquilo. Tentei levantar, mas ele se jogou sobre mim sedento como um leão magro que pegará sua presa.

Rasgou o tecido maltrapilho que eu estava usando com suas garras e com uma fúria animalesca me deixou nua em meio aquele lugar esquecido. Meu corpo frágil e despido 


       O quê estou fazendo aqui?

    Eu tentava gritar, me livrar daquele diabo. Mas meu corpo terrificado não me obedecia. O barulho da fivela dele se abrindo me tirou daquele torpor em que me encontrava, mas já era tarde. Ele me possuiu.

       Onde estou?

       Tudo pareceu mais lento. O tempo decidiu me torturar enquanto ele me estuprava. Suas mãos se agarravam fortes à minha pele. Havia uma familiaridade naquele toque...

       Onde... Onde estou?!

       Você não tem culpa, alguém sussurrou.

       E o terror voltara.

     Me livrei de uma das garras daquele monstro e arranhei sua face de borracha debochadora. Cabelos castanhos rolaram de dentro da máscara e o cheiro de suor bestial encheu meus pulmões. Cheiro com dualidade macabra de terror e nostalgia - um pouco de prazer.

       Você não tem culpa, disse minha irmã.

       Essa não era eu. Eu nunca estive aqui. E esse homem a quem devo amaldiçoar me traz sensações familiares... Em meio aos gritos do corpo que não era o meu, em meio ao terror de sentir outra pessoa ser violada, ele finalmente me encarou. E aqueles olhos negros me retribuíram o olhar, terrificados.
Ele saiu de cima de minha hospedeira sobressaltado e com o lábio tremendo. Então um nome saiu engasgado de sua garganta...

       Regina!

       E num acesso lacrimoso de nítida raiva - ou decepção - ele me espancou... A espancou!

      Suas mãos indignas a sufocaram, impedindo que o amaldiçoado ar entrasse em seu peito. O cabo emborrachado do martelo chamou pelo seu dono com desespero assassino. Gritava enquanto ele o alcançava. Gritou por Martinho, meu marido!

       E o sangue de minha irmã reluzia à luz da lua e se tornou o orvalho carmesim do capim seco daquele lugar esquecido, enquanto ele martelava o crânio dela. E eu senti com ela... Cada golpe triturando o osso enquanto o tempo novamente a castigava com aquele destino terrível. E a voz dela dizia: Culpado!

       Acordei no chão do homem seboso. Martinho estava ao meu lado, morto com uma mão abaixo da jaqueta onde o cabo de um revolver reluzia. Sua cabeça estava triturada como se... como de ele tivesse levado várias marteladas. E o homem seboso, despido do outro lado da sala, sorria.